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    July 19

    Também escrevo coisas sem sentido

    A volta das maritacas*

     

     

    Dia após dia, manhã após manhã, olho a palmeira pela janela do quarto. Alta, cerca de 7 metros de altura, imponente, produz grande número de pequenos coquinhos em cachos pendentes que exaltam a fertilidade da árvore que lhes deu a vida e a missão de perpetuar a espécie.

    Maritacas são pequenas aves de cor verde, o mais belo verde que se possa ver, às vezes confundidas com pequenos papagaios e que são na verdade aves do mesmo gênero. Por anos e anos bandos iam e voltavam ao nascer do sol, barulho intenso em acrobacia aérea em volta da palmeira. Como um despertador natural, passei a desejar sempre ser despertado pelo som que, pouco tempo depois, não incomodava. Antes, o imaginei como harmônico por trazer agradáveis sensações como um regozijo à natureza. A cena é singela, a sensação de prazer infinita.

    O pensar liberto, especulações dispersas, desgarradas. Apoiar-se à janela, silenciosamente, com todo o cuidado, maritacas em bandos cobrem a palmeira mais uma vez. Precioso estímulo criador. Se quiser, menos que isso, apenas agradável deleite. Pretensiosos poetas cantam a música e os movimentos das pequenas musas verdes e se apaixonam. Assim me sentia com alegre despertar dia após dia.

    De repente num desses dias as maritacas não vieram. Acordei, por não ouvi-las! Achei tudo muito estranho. As maritacas, aves coerentes, simplesmente não podiam faltar ao seu compromisso de voar sobre a minha palmeira. Ora, aves coerentes? Coerência é uma característica abstrata, portanto humana e não pode neste caso ser aqui aplicada. Isso, entretanto não responde. Onde estariam as maritacas?

    Não considero razoável sentir sua ausência. Mas, faziam parte do meu dia, de minhas manhãs, de minha vida, do meu despertar...

    Depois de alguns anos, agora, neste inverno elas voltaram. Não trouxeram respostas e não expuseram as razões de tão sentida ausência. Não permitiram que perguntasse. Fiz silêncio, abri suavemente a janela, voltei a ver as acrobacias do bando das pequenas aves verdes, novamente ouvi seus harmônicos gritos e observei a palmeira também mais linda, mais robusta como se dissesse que cumpria seu papel.

    Se algum dia as maritacas explicarem porque sumiram então entenderei porque sinto tanto sua falta.

    A história dos paradoxos está apenas começando.

     

     

    * Existem no “google” cerca de 14 300 páginas em português sobre maritacas.

     

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